Interessante texto de um jovem motociclista de 80 anos (bem vividos), João Serralvo (www.joaoserralvo.com), afinal, entre amantes de "2 rodas" não existe idade.
CARTA DE MOTO
Lá pela década de 50, na insuperável cidade de Lençóis Paulista, éramos apenas três motociclistas. Irineu, Yves e João. A moto era instrumento de trabalho, transporte, diversão, paixão e aventura. E um pouco de loucura. Durante a semana, a maior utilidade. No final de semana, não se perdia nenhum baile na roça nem as pescarias em lugares inacessíveis aos outros, coitados! Só os cavaleiros podiam nos acompanhar, mas seus animais requeriam cuidados que os nossos veículos dispensavam.
Não há caminho impossível para motos. Passam ligeiras e seguras aonde os automóveis não se atrevem. Deslizam pelas trilhas mais estreitas, fazem as curvas mais fechadas, e não recuam de nenhum obstáculo por mais estranho que seja. Ao contrário, o bom piloto os procura, enfrenta e vence, apenas pelo prazer de superá-los. Não há desafio que se recuse.
Naquele tempo só as estradas mais importantes eram asfaltadas. Era só terra batida, areião, buracos, lama e barro. Uma delícia! Carros e caminhões colocavam correntes nos pneus, rodavam devagar, pé ante pé, como pisando em ovos. A tecnologia da época não podia suavizar o rolamento na estrada, mesmo com as melhores molas e amortecedores. Só as motos bem pilotadas passavam alegremente pelas pistas difíceis, sem atropelos.
Naquele tempo não se usavam capacetes, botas, luvas e outros apetrechos de proteção. Não havia nada disso. Não era necessário. Nossos riscos eram poucos. Bastavam a cara e a coragem. O grande desafio era entrar no Globo da Morte, quando aparecia algum circo na cidade, o que nunca nos permitiram. Atualmente o Globo da Morte está superado pelas acrobacias dos pilotos que fazem do motociclismo um esporte arrojado e perigoso, com lances emocionantes, incríveis e admiráveis. O que representa uma frustração para os mais antigos, como eu.
A tecnologia avançou e dotou os automóveis de segurança e conforto. Hoje você dirige sem fazer quase nada, ouvindo música, falando ao celular, conversando com os passageiros, na maior moleza. Mas o trânsito piorou. Não anda! Os congestionamentos são imensos. Problema só para carros, não para motos. Estas não se prendem por nada. Costuram entre os veículos maiores, aproveitam os mínimos espaços, desafogam o movimento das ruas.
Carro tem conforto, tem facilidades, mas é irritante. Virou fonte de problemas, discussões, brigas e até crime. Moto é agilidade, eficiência e cortesia. Motociclistas não precisam de música ambiente, ar condicionado, dispensam essas frescuras e ganham preparo físico. Motoristas se isolam com vidros escuros, carros à prova de bala, morrendo de medo. Quando se comunicam é para reclamar e discutir. Motociclistas avançam de peito aberto, vento na cara, sem embaraços. Quando se encontram fazem amizade, andam juntos, formam grupos e se apóiam mutuamente. Carros produzem arrogância e conflitos. Motos promovem camaradagem e alegria de viver. Carros disputam espaço. Motos se movimentam com liberdade. Viaje de carro, se gostar. Mas se você quer chegar com certeza, vá em duas rodas. Não tem comparação!
No carro, é a tecnologia que manda. Ela dirige, você obedece e baixa a cabeça. Na moto, é você que manda na máquina. No carro, suas ações se restringem aos recursos mecânicos e eletrônicos do veículo. Você é apenas um agente. Na moto, você é um ser humano decidindo por si mesmo.
Há regras demais hoje em dia. A burocracia não poupou as motos. O piloto agora tem mil obrigações, paga impostos, recebe multas, anda cheio de acessórios pendurados no corpo. A tecnologia das motocicletas evoluiu, acrescentou-se, mas não dispensou a habilidade do condutor que, ao contrário, se aprimorou. Pois é isso que tem graça!
No meu tempo, comprávamos a moto e saíamos dirigindo. Não havia nenhuma exigência. Éramos livres e autônomos. Mas certa vez apareceu na cidade um chato fardado que nos pediu carteira de habilitação. Não tínhamos. Nunca havíamos pensado nisso. Então fomos intimados a ir a Bauru, prestar exame e habilitar-nos. Como se já não tivéssemos habilidade...
No dia e local marcados o examinador, tenente Marcelo, mandou que fizéssemos um “oito” com a moto em torno de duas balizas. “Só isso?”, pensamos. Moleza! Olhamos uns para os outros e preparamos as motos. Tinha que ser um por um. Um de cada vez. Eu fui o primeiro chamado. Cuidadosamente, executei a prova, terminei e encostei, bem comportado.
Em seguida foi o Yves. Estava bravo porque nos fizeram viajar até Bauru para tão pouco. Engrenou a moto e disparou por entre as balizas. A moto roncando, fez o oito em alta velocidade e parou na cara do tenente, cabeça erguida, olhando bem nos olhos dele. Este aceitou o exercício, desprezou a arrogância do Yves e, muito calmo, chamou o próximo.
Era o Irineu, que estava ali, tramando e observando tudo. Ele decidiu inovar. Montou na moto ao contrário, e fez o oito de costas. O tenente não gostou, mas resolveu dar-lhe outra chance. Então o Irineu montou de frente, posição normal, disparou e fez o oito rapidamente, parando na frente do examinador com a cabeça erguida e... os olhos fechados! Foi como ele fez o teste. Pensei “agora ele nos reprova só de raiva”. Errei.
O tenente pegou a minha moto, ligou, disparou e fez um “oitenta e oito” (dois oitos) só na base da derrapagem, em segundos! Vi a minha moto em cacos, mas foi só o susto. O homem parou exatamente no local onde a pegou, sem nenhum arranhão. Mostrou mais habilidade do que nós.
Passado o sobressalto, conversamos, relaxamos e rimos muito. Fomos todos aprovados e recebemos a habilitação. A carta de moto foi para mim, por mais de meio século, uma preciosa relíquia... para guardar na caixa de ferramentas.
Recentemente, ao renovar a minha CNH, precisei desistir da autorização para pilotar motos, pois me consideraram velho, sem condições físicas. E agora meu prazer está em ver e admirar os jovens motoqueiros com suas máquinas fantásticas roncando nas ruas, nas estradas e nas pistas.
E quando passo por eles em meu carro, recordo as alegrias do meu tempo, dou adeus e... fico pra trás!




